Nota ao leitor: o material verificado desta edição não contém dados sobre a B3, a bolsa de Lisboa ou empresas sediadas no Brasil ou em Portugal. Por isso não afirmamos nenhuma ligação direta com os seus investimentos locais. O que segue é o que os dados sustentam, e o que isso diz sobre o ciclo global de IA que move os mercados em que muitos leitores lusófonos investem.
O número mais sólido: uma fabricante de memória que dobrou a aposta
O dado mais firme desta edição vem de documentos da SEC, o regulador do mercado de capitais dos EUA. A Micron Technology, fabricante de chips de memória, investiu US$ 7,676 bilhões em equipamentos e fábricas no ano fiscal de 20231. No ano fiscal de 2024 foram US$ 8,386 bilhões1. No de 2025 subiu para US$ 15,857 bilhões1. Em dois anos o investimento anual mais do que dobrou.
O ritmo continua a acelerar. No primeiro trimestre fiscal de 2024 a empresa investiu US$ 1,796 bilhão1. No mesmo trimestre de 2025 foram US$ 3,206 bilhões1. No de 2026 chegou a US$ 5,389 bilhões1, cerca de o triplo do valor de dois anos antes. Para dar escala, só neste trimestre a Micron gastou em fábricas o equivalente a quase metade do que gastou no ano inteiro de 2023.
Segundo o grafo de entidades da Via News, a Micron fornece à Amazon Web Services e à Meta Platforms, e está localizada em Taiwan2. É essa procura dos grandes centros de dados que justifica a aposta. Mas o fornecimento depende de uma região geograficamente concentrada, um risco que vale ter em mente.
O caixa acompanhou, mas custa mais produzir
A Micron não está a financiar essa expansão no aperto. O caixa era de US$ 10,163 bilhões no terceiro trimestre fiscal de 20253. Passou a US$ 13,908 bilhões no segundo trimestre de 20263 e a US$ 24,995 bilhões no terceiro trimestre de 20263. Num único trimestre o caixa aumentou cerca de 80%.
O custo de produzir também subiu. O custo da receita foi de US$ 16,956 bilhões em 20234, US$ 19,498 bilhões em 20244 e US$ 22,505 bilhões em 20254. O dossiê verificado não traz a receita da empresa. Por isso não calculamos margens, e quem o fizer a partir de outras fontes deve confirmar os números.
Energia e centros de dados: o outro lado da corrida
A IA precisa de energia constante. Nicholas Amicucci, em artigo de 3 de julho, argumenta que a capacidade da Bloom Energy de fornecer energia confiável e despachável a uma procura volátil a diferencia dos concorrentes5. A fonte, porém, merece cautela: segundo a medição da Via News, apenas 46% de 520 afirmações verificadas deste editor se confirmaram5.
Outra aposta em energia é a NuScale (SMR). Segundo o texto, as ações caíram quase 40% em 2026, mas Rinny Singh, do Bank of America, reiterou a recomendação de compra no início de agosto, com preço-alvo de US$ 12 e alta implícita de cerca de 24% em 12 meses6. Aqui a confiança é baixa: só 22% de 18 afirmações verificadas dessa fonte se confirmaram6. Um número tão pequeno de verificações também limita o que se pode concluir. Tratamos a recomendação como opinião de uma analista, não como fato.
Quando o entusiasmo fica caro: o caso da D-Wave
A computação quântica mostra o outro extremo. Melissa Tucker estima que a D-Wave (QBTS) negocia a 171 vezes as suas vendas, com receita projetada de cerca de US$ 35 milhões em 2026. Ela calcula um valor justo de US$ 9,50 por ação, o que implica cerca de 40% de queda em relação ao nível então vigente. Cita um cronograma tecnológico atrasado e a dependência de um fornecedor, a SkyWare, que a IonQ pretende adquirir7. Em linguagem simples: o mercado paga por cada dólar de venda da D-Wave 171 vezes o que ela fatura num ano. A mesma fonte nota que a ação recuou cerca de 10% naquela terça-feira, depois de subir 20% na sessão anterior, e que acumula queda de 25% no mês7.
A síntese de narrativa da Via News para o período classifica o sentimento como misto, com um recuo superior a 40% da SpaceX em relação às máximas8. Trata-se de leitura nossa dos dados, não de fato verificado, e o dossiê não traz o preço da SpaceX para confirmar o percentual.
O consumidor em "K": quem sobe e quem fica para trás
Fora da tecnologia, o quadro é mais irregular. Eric Gonzalez, da Seaport Global, iniciou a cobertura do Wendy's com recomendação neutra em 16 de setembro, e a ação caiu quase 6% nesse dia, em tendência de queda desde o fracasso de um plano de compra da empresa9. A fonte não tem data.
Na Nike, Lorraine Hutchinson cortou o preço-alvo porque a recuperação das vendas está a demorar mais do que o esperado10. Na Levi Strauss o tom é melhor: Kendall Toscano reiterou compra e alvo de US$ 27, chamando a empresa de oportunidade para quem busca "higher-quality, consistent growth"11. A Levi tenta subir de patamar, com uma linha premium de calças de US$ 200 a US$ 350 e outra de valor11.
O sinal mais sensível é o crédito. A Capital One investiu mais de US$ 35 bilhões na compra da Discover, mais do que o dobro do que a Micron gastou em fábricas em todo o ano fiscal de 202512. Acumulou US$ 1,8 bilhão em despesas de integração12. Stephen Biggar avalia que o forte aumento de reservas no trimestre anterior pode ter sido lido pelo mercado como negativo porque indicaria que "they expect some weakness or deterioration in credit quality"12. Reservas maiores são dinheiro que o banco separa por receio de calotes.
Onde as fontes divergem, e o que acompanhar
Duas ressalvas de confiança. Primeiro, a maioria dos artigos de notícias usados aqui tem fiabilidade medida de 57% (afirmações que resistiram à verificação), e o de Bloom Energy e o de NuScale ficam abaixo disso5,6. Segundo, um relatório de analista é uma opinião, e é por isso que a Micron, cujos números vêm direto da SEC, serve de âncora.
O que observar, com base nas datas do dossiê:
- 14 de novembro de 2026: prazo-alvo da FDA para decidir sobre o pedido de licença do ivonescimab, da Summit Therapeutics13.
- Iovance: Andrea Newkirk, da Goldman Sachs, retomou a cobertura com compra e alvo de US$ 15 em 24 de setembro14.
- Março de 2027: vencem US$ 500 milhões em títulos a 2,9% de uma empresa coberta, que deverão ser refinanciados a juros mais altos13.
- Micron: se o investimento trimestral continuar acima de US$ 5 bilhões e o caixa continuar a crescer, a tese da IA segue a ser financiada pelo próprio negócio.


