Por que isso importa para quem investe a partir do Brasil ou de Portugal
Nenhuma das startups ou operações descritas neste dossiê tem sede na Lusofonia. Isso, em si, é a primeira coisa que um leitor em São Paulo ou em Lisboa precisa saber: a corrida dos agentes de IA corporativa continua a ser, por enquanto, um fenómeno concentrado nos Estados Unidos e na Europa do Norte. Mas a exposição chega de forma indireta — através das ações e dos fundos de índice que já estão nas carteiras de milhões de investidores lusófonos, sobretudo os que detêm a Nvidia, direta ou indiretamente. É por aí que começa esta história, e é aí que a Via News consegue verificar o que é facto e o que é apenas entusiasmo de mercado.
Os números da Nvidia, sem floreios
A Nvidia é o fornecedor de infraestrutura por trás de boa parte desta onda de agentes — da caixa de ferramentas NeMo Agent Toolkit às grades de segurança NeMo Guardrails, passando pelo sistema de avaliação A-IQ e pelos microserviços NeMo, todos desenvolvidos internamente pela empresa8. Os números financeiros, extraídos diretamente das suas declarações à SEC (a reguladora do mercado de capitais dos EUA), mostram a escala do que está em jogo: o custo da receita da Nvidia — ou seja, quanto custa produzir o que ela vende — saltou de 16,6 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2024 para 32,6 mil milhões em 2025 e para 62,5 mil milhões em 20268. Por outras palavras, o custo de produção quase duplicou em cada um dos últimos dois anos fiscais — um ritmo de crescimento que poucas empresas em qualquer setor conseguem sustentar. O caixa disponível da empresa seguiu trajetória semelhante, de 7,28 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2024 para 10,6 mil milhões em 20268, e o lucro por ação passou de 0,82 dólares no primeiro trimestre de 2024 para 4,90 dólares acumulados no ano fiscal de 20268. Quem tem um fundo de índice global ou um ETF tecnológico na carteira muito provavelmente já tem exposição a esta trajetória, mesmo sem nunca ter comprado uma ação da Nvidia diretamente.
As grandes empresas estão a formalizar a governação da IA
Enquanto os números da infraestrutura sobem, as grandes corporações estão a assinar acordos que tentam colocar ordem na forma como os agentes de IA vão operar dentro das suas organizações. A seguradora canadiana Manulife renovou e expandiu, em 22 de julho de 2026, a sua parceria de longa data com a Microsoft, adotando o Microsoft Frontier Suite e implementando o Microsoft Agent 365, além de expandir o Microsoft 365 Copilot para mais de 30 mil funcionários2. Shamus Weiland, executivo da Manulife, descreveu o acordo em termos claros: "A nossa parceria com a Microsoft é um facilitador crítico da contínua evolução da Manulife rumo a uma organização verdadeiramente orientada por IA. A adoção do Microsoft Frontier Suite representa a próxima fase dessa transformação, dando-nos a base de confiança para avançar com a IA nas nossas operações globais com confiança"2.
No dia anterior, 21 de julho de 2026, a Box anunciou novos controlos de segurança para agentes de IA que operam sobre conteúdo empresarial — deteção de injeção de comandos, políticas de acesso baseadas na classificação do agente e supervisão de agentes de terceiros3. O Nomura Research Institute, cliente japonês da Box, elogiou o movimento através de Tatsutoshi Murata: "À medida que avançamos rapidamente na utilização de agentes de IA, esperamos que a Box... forneça as funcionalidades administrativas necessárias para utilizar com segurança esta nova era da IA"3. Estes dois anúncios, vindos de setores tão diferentes como seguros e gestão de conteúdo, mostram o mesmo instinto: adotar agentes de IA, mas apenas dentro de grades de proteção formais — o mesmo tipo de grade de segurança que a própria Nvidia já disponibiliza aos seus clientes através do NeMo Guardrails8.
Uma geração de startups a apostar em nichos específicos
Ao lado dos gigantes, uma vaga de startups verticais está a angariar capital e atenção para resolver problemas muito específicos com agentes de IA. A Covecta, por exemplo, direciona-se a bancos comerciais, credores não-bancários especializados, sociedades de construção, cooperativas de crédito e organizações de crédito privado — atualmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, com planos de expansão global4. O seu diretor de receita, Ben Thomas, definiu a ambição da empresa sem rodeios: "O mercado endereçável total da Covecta são dezenas de milhares de instituições financeiras a nível global, e para elas não estamos apenas a perturbar o orçamento de software, mas também o orçamento de mão de obra"4. A empresa propõe-se substituir tarefas críticas por "agentes bancários experientes", capazes de assumir "as tarefas, fluxos de trabalho e atividades de portefólio que a IA generalizada" não consegue4.
Na área da saúde, a Penguin AI mira um problema de escala impressionante. Segundo Glenn Herzberg, responsável de marketing da empresa, "a administração de saúde nos EUA movimenta cerca de um bilião de dólares por ano, cerca de um quarto do gasto total em saúde, e as estimativas publicadas apontam para cerca de 570 mil milhões de dólares desse valor em trabalho que não tem qualquer efeito nos resultados de saúde"5. É nesse desperdício administrativo — não no orçamento de software de TI da saúde — que a empresa diz definir o seu mercado5. Já a espanhola Maisa AI, segundo o seu CEO David Villalon, foca-se na automatização de processos em indústrias reguladas: "defino o meu mercado como o mercado de automatização de processos de tarefas centrais de negócio e produção em indústrias reguladas... tarefas centrais que hoje são manuais ou geridas por humanos"6.
Por trás de startups como a Casap — fundada por antigos funcionários da Robinhood e da Chime —, investidores como a Primary descrevem o padrão que procuram: fundadores que já sentiram o problema por dentro. Emily Man, sócia da Primary, contou que os fundadores "tinham experimentado em primeira mão as dores das disputas nas suas respetivas grandes empresas de fintech e viram a quantidade de esforço interno e trabalho organizacional necessário para resolver esses desafios mesmo com uma equipa de engenharia muito forte"7, acrescentando que "o feedback foi absolutamente claro de que eram dois construtores excecionais, verdadeiramente apaixonados por começar algo próprio"7.
O aviso que a Via News não pode deixar de mostrar
É aqui que esta reportagem precisa de ser mais cautelosa do que entusiasta. A peça mais citada sobre a prontidão de dados para agentes de IA — "Scaling AI agents with trustworthy data", publicada pela MIT Technology Review em 12 de agosto de 2026 — é também a fonte com o pior registo de fiabilidade em todo este dossiê: das 11 afirmações verificáveis extraídas desse artigo, exatamente zero resistiram à verificação factual da Via News1. Isto não significa necessariamente que os números estejam errados — significa que, até hoje, nenhum deles pôde ser confirmado de forma independente, o que é motivo suficiente para tratar as suas conclusões com mais reserva do que a confiança com que costumam ser repetidas.
Com essa ressalva bem visível, os números que esse artigo apresenta são estes: dentro de dois anos, 100% dos inquiridos numa sondagem afirmam que planeiam usar IA agêntica, com 69% a esperar usá-la de forma generalizada1. Ao mesmo tempo, nas organizações classificadas como "retardatárias em dados", o acesso dos agentes de IA aos dados da empresa cai para 30% ou menos1. A distância entre estes dois números — intenção quase universal de um lado, acesso real limitado do outro — é exatamente o tipo de contradição que separa o discurso de vendas da realidade operacional. E é precisamente por essa razão que a Via News optou por não repetir a estatística de "45% de acesso médio aos dados" que circula ligada a este tema: não encontrámos, nesta verificação, uma afirmação isolada e citável que a sustente com a mesma fonte, pelo que preferimos ficar apenas com os dois números que conseguimos rastrear diretamente ao artigo original.
O que observar a seguir
Para um leitor lusófono, os pontos a acompanhar são práticos. Primeiro, os próximos resultados trimestrais da Nvidia — a tendência de custo de receita e de caixa mostrada acima é a variável que mais diretamente afeta qualquer fundo de índice tecnológico global detido a partir do Brasil ou de Portugal8. Segundo, se e quando surgirem operações lusófonas equivalentes às da Covecta, Penguin AI ou Maisa AI — nada neste dossiê indica, por agora, uma presença startup de agentes de IA verticais na Lusofonia, e a Via News não vai inventar essa presença apenas porque seria uma boa história. Terceiro, e mais importante: sempre que uma estatística sobre "prontidão de dados" ou "adoção de IA agêntica" aparecer citada sem menção à fonte primária, vale a pena perguntar se essa fonte resistiria ao mesmo teste de verificação que a MIT Technology Review não resistiu neste caso.


