Nota ao leitor lusófono: o material verificado de que dispomos não contém dados específicos do Brasil nem de Portugal. Não vamos fingir o contrário. Ficam os factos globais, e a leitura para o seu mercado é uma inferência nossa, assinalada como tal.
Por que isto importa agora: a promessa é unânime, a confiança não
Segundo um estudo publicado pela MIT Technology Review, 100% dos inquiridos planeiam usar IA agêntica dentro de dois anos, e 69% esperam usá-la de forma generalizada.1 O mesmo texto aponta o verdadeiro obstáculo: o acesso a dados fiáveis e estruturados. Nas organizações classificadas como «data laggards» (atrasadas em dados), a IA acede a 30% ou menos dos dados da empresa.1
O resumo que recebemos para este tema acrescenta que, em média, só cerca de 45% dos dados das empresas são acessíveis à IA e que cerca de metade das organizações confia nas decisões dos seus agentes.1
Um aviso sobre a fiabilidade. A nossa medição da MIT Technology Review, neste conjunto de dados, é de 0% de 11 afirmações verificadas que se confirmaram.1 Isso não prova que os números estejam errados. Mostra que não conseguimos confirmá-los contra uma fonte primária. Por isso tratamos o «45%», o «cerca de metade» e o «100%» como relato do estudo e não como dado verificado. Quem decide com base neles deve saber disso.
A infraestrutura que sustenta os agentes: o que os balanços verificados mostram
Aqui os números são sólidos, porque vêm de documentos entregues à SEC, o regulador dos mercados dos Estados Unidos, e foram verificados contra essa fonte. A Nvidia, a fabricante de chips que está na base de grande parte desta onda, registou custo de receita de 16,621 mil milhões de dólares no exercício de 2024,2 de 32,639 mil milhões em 20253 e de 62,475 mil milhões em 2026.4 Em dois anos, esse custo foi multiplicado por cerca de 3,8.
Convém ser exato sobre o que isto mede. É o custo de produzir e vender, não é a receita nem o lucro. Mostra a escala da operação e não diz, por si só, se o negócio é mais ou menos rentável. Não fazemos essa leitura porque o dossiê não a sustenta.
A caixa da empresa também cresceu: 5,079 mil milhões de dólares no primeiro trimestre do exercício de 20245 e 13,237 mil milhões no primeiro trimestre de 2027.6 Ou seja, cerca de 2,6 vezes mais em três anos.
Quanto ao lucro por ação, os registos mostram 11,93 dólares em 2024, 2,94 em 2025 e 4,90 em 2026.7 Esta sequência não é comparável tal como está, e o dossiê não traz o ajuste de ações que a explicaria. Por isso não tiramos conclusões dela.
O grafo de relações da nossa base mostra o ecossistema à volta da Nvidia. A AMD é concorrente. A TD Synnex fornece à Nvidia. Ferramentas como o NeMo Guardrails e o NeMo Agent Toolkit são desenvolvidas por ela. Entre os clientes estão o Mount Sinai Health System, a Yum! Brands e a State of Alaska Legislative Affairs Agency.8
A corrida não se limita ao Ocidente. A Alibaba T-Head tem agendado o chip de IA Zhenwu V900 para o terceiro trimestre de 2027 e o J900 para o terceiro trimestre de 2028.9 A construção de infraestrutura, portanto, está planeada com anos de antecedência.
Os grandes já se movem, e a palavra-chave é governação
A Manulife e a Microsoft anunciaram, a 22 de julho de 2026, a renovação e ampliação da relação entre as duas, num acordo de cinco anos. A Manulife vai adotar a Frontier Suite da Microsoft e usar o Microsoft Agent 365. Vai também alargar o Microsoft 365 Copilot a mais de 30.000 funcionários.10 Shamus Weiland descreveu a parceria como «a critical enabler» da evolução da Manulife para uma organização orientada por IA.10
A 21 de julho, a Box apresentou controlos para proteger agentes de IA que operam sobre conteúdo empresarial. Incluem proteções para agentes, supervisão da atividade de agentes de terceiros, deteção de injeção de instruções maliciosas e políticas de acesso por classificação de agente.11 O Nomura Research Institute diz esperar que a Box forneça «the administrative features needed to safely leverage this new era of AI», nas palavras de Tatsutoshi Murata.11
Estas duas fontes são comunicados de imprensa, em que a empresa fala de si mesma. Na nossa medição, 57% de 4.954 afirmações verificadas desta fonte (NewsEOD) confirmaram-se.10,11 Há informação útil, mas deve ser lida como anúncio.
Fica um padrão que merece atenção. Tanto os anúncios como o estudo apontam para o mesmo ponto: controlo e confiança nos dados valem tanto como a capacidade do modelo. Isto é uma leitura da Via News, e a evidência são os dois anúncios acima.
Onde as startups vão buscar o dinheiro: orçamento de pessoal, não de software
Ben Thomas, da Covecta, diz que o mercado da empresa são «tens of thousands of financial institutions globally» e que, para elas, não estão «just disrupting their software budget but their labor budget as well».12 A Covecta serve bancos, credores especializados, building societies, credit unions e organizações de crédito privado, hoje nos EUA e no Reino Unido, com planos de expansão global.12 Sobre o Brasil ou Portugal, o dossiê não diz nada.
Na saúde, Glenn Herzberg, da Penguin AI, define o mercado como gasto em trabalho administrativo e não como orçamento de software. Segundo ele, a administração da saúde nos EUA custa cerca de um bilião de dólares por ano, um quarto da despesa total em saúde, e as estimativas publicadas colocam cerca de 570 mil milhões disso em trabalho sem efeito nos resultados clínicos.13 Em termos simples, e segundo essa estimativa, mais de metade da fatia administrativa seria trabalho que não melhora a saúde de ninguém. É a estimativa de um executivo que vende a solução, não um facto auditado.
David Villalon, da Maisa AI, define o mercado como automação de tarefas centrais em setores regulados, como retaguarda, operações e finanças. Essas tarefas têm de ser auditáveis, reprodutíveis e resistentes a alucinações.14 Essa exigência liga-se ao problema dos dados fiáveis.
Também há capital novo a circular. A Latitude, plataforma de pagamentos fundada por Cyril Mathew, antigo membro da equipa de cripto da Stripe, levantou 35 milhões de dólares numa Série A a 10 de setembro de 2026. O produto converte stablecoins em moeda local.15 Não é uma empresa de agentes de IA, e o dossiê não a liga diretamente a esse tema. Mostra apenas que a infraestrutura financeira continua a atrair investimento.
O que isto pode significar para o leitor no Brasil e em Portugal
Esta secção é análise da Via News e não facto do dossiê. Se o gargalo é a qualidade e a acessibilidade dos dados, as empresas lusófonas com sistemas dispersos enfrentarão o mesmo problema que o estudo descreve. Nada no material verificado mede esse atraso nos nossos mercados. Quem acompanha bancos, seguradoras ou prestadores de saúde da região deve perguntar-lhes quanto dos seus dados está pronto para agentes, e não apenas quanto planeiam gastar em IA.
O que observar
- Se o dado de «45% acessível» aparece noutra fonte com verificação independente. Por agora, é só relato.
- Se a Covecta e a Penguin AI mostram clientes pagantes. Definir um mercado em «orçamento de trabalho» é uma tese e não um resultado.
- Se os controlos de segurança para agentes, como os da Box, se tornam exigência de contrato nas grandes empresas.
- Os chips Zhenwu V900 (3.º trimestre de 2027) e J900 (3.º trimestre de 2028), e os próximos balanços da Nvidia, para ver se o investimento em infraestrutura continua.


