O que isso significa para quem investe a partir daqui
Mesmo quem nunca comprou uma ação americana diretamente provavelmente já tem dinheiro na Nvidia — a empresa aparece na carteira da maioria dos fundos globais de tecnologia e dos ETFs que replicam índices como o Nasdaq, populares entre investidores de varejo no Brasil e em Portugal. É por isso que os números da própria Nvidia, extraídos de seus registros junto à SEC (a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos) e verificados de forma independente, são o ponto de partida mais sólido para entender a corrida por agentes de inteligência artificial que está varrendo o mundo corporativo1.
O custo da receita da Nvidia — o quanto a empresa gasta para fabricar e entregar os chips que sustentam toda essa infraestrutura de IA — saltou de 16,6 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2024 para 62,475 mil milhões no ano fiscal de 20261, um salto de quase quatro vezes em dois anos. É esse tipo de gasto, multiplicado por dezenas de fornecedores como a AMD, que concorre diretamente com a Nvidia, e distribuidores como a TD Synnex, que abastece a Nvidia com componentes, que está por trás de cada anúncio de "agente de IA" que uma grande empresa faz esta semana1.
Vale também mostrar onde os números pedem cautela, e não conclusões apressadas. O caixa trimestral da Nvidia caiu de 15,234 mil milhões de dólares no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026 para 13,237 mil milhões no mesmo trimestre seguinte1 — uma queda de cerca de 13% num momento em que a despesa com produção de chips continuava subindo. E o lucro por ação registrado na SEC também não é uma linha reta: 11,93 dólares no ano fiscal de 2024, caindo para 2,94 dólares em 2025 e recuperando parcialmente para 4,90 dólares em 20261. Os dados verificados não indicam a causa dessa oscilação — pode refletir um desdobramento de ações ou outro fator contábil — e por isso não atribuímos aqui nenhuma explicação que não esteja confirmada. É exatamente esse tipo de salto que merece checagem antes de qualquer decisão de investimento, e é o tipo de checagem que este jornal se propõe a fazer.
Os contratos que sustentam a narrativa de adoção
Enquanto os números de infraestrutura crescem, as grandes empresas estão assinando acordos concretos para colocar agentes de IA para trabalhar. A seguradora canadense Manulife renovou e ampliou, em 22 de julho de 2026, sua parceria de cinco anos com a Microsoft, adotando o pacote Frontier Suite e implantando o Microsoft Agent 365, além de expandir o Copilot do Microsoft 365 para mais de 30 mil funcionários2. "Nossa parceria com a Microsoft é um facilitador crítico da evolução contínua da Manulife rumo a uma organização verdadeiramente orientada por IA. A adoção do Microsoft Frontier Suite representa a próxima fase dessa transformação, dando-nos a base de confiança para avançar com a IA em todas as nossas operações globais", declarou Shamus Weiland, executivo da Manulife2.
Do lado da segurança, a Box anunciou em 21 de julho de 2026 novos controles para proteger conteúdo empresarial de agentes de IA — incluindo detecção de injeção de prompts e políticas de acesso baseadas na classificação dos agentes3. Tatsutoshi Murata, do Nomura Research Institute, endossou a mudança: "À medida que avançamos rapidamente na utilização de agentes de IA, esperamos que a Box — que tem liderado consistentemente o desenvolvimento de capacidades de gestão de segurança para colaboração segura — forneça os recursos administrativos necessários para aproveitar com segurança esta nova era da IA"3. Esse mesmo tema de infraestrutura conecta a francesa Mistral AI, fundada por Timothée Lacroix, que figura como cliente da Nvidia — mostrando que a corrida por chips de IA não se limita às big techs americanas, mas alimenta também os principais laboratórios europeus de IA1.
A lacuna de confiança — e um alerta sobre a própria fonte dos números
É aqui que a história fica mais interessante, e onde este jornal precisa ser transparente sobre os limites do que pode afirmar. Um relatório da Google Cloud, publicado em 12 de agosto de 2026 e baseado em uma pesquisa com 300 executivos de dados e tecnologia, é a origem central das estatísticas mais citadas sobre a lacuna de confiança em IA agêntica: dentro de dois anos, 100% dos entrevistados planejam usar IA agêntica, com 69% esperando um uso amplo; mas em organizações classificadas como "retardatárias em dados", o acesso da IA aos dados da empresa cai para 30% ou menos4.
O problema é que, na checagem de fidelidade feita por este jornal, apenas 0% das 11 alegações verificáveis dessa mesma reportagem se confirmaram4 — uma taxa de acerto extremamente baixa que exige a máxima cautela antes de tratar qualquer número dela como fato estabelecido. Por isso, apresentamos essas estatísticas de adoção como o que a reportagem original afirma, não como dado confirmado por nós — a diferença entre citar uma fonte e endossá-la é exatamente o tipo de distinção que este jornal existe para fazer.
O que dá substância concreta a essa lacuna de confiança são os relatos de quem está construindo os agentes por dentro. A Casap nasceu depois que suas fundadoras, vindas de grandes fintechs, viveram na pele o problema: "Elas tinham vivido de perto as dores das disputas em suas respectivas grandes empresas de fintech e viram o quanto de esforço interno e trabalho organizacional era necessário para resolver esses desafios mesmo com uma equipe de engenharia muito forte", contou Emily Man, sócia da Primary, investidora da empresa5. Já a Covecta atende bancos comerciais, credores não bancários e cooperativas de crédito nos Estados Unidos e no Reino Unido com "agentes bancários experientes capazes de assumir as tarefas, fluxos de trabalho e atividades de portfólio de missão crítica que a IA generalizada" não consegue fazer sozinha, segundo Ben Thomas, diretor de receita da empresa6. Na área regulada de saúde, Glenn Herzberg, da Penguin AI, situa o tamanho do problema: "A administração da saúde nos EUA movimenta cerca de um trilhão de dólares por ano, cerca de um quarto do gasto total em saúde, e as estimativas publicadas apontam cerca de 570 mil milhões de dólares disso em trabalho que não tem efeito nenhum sobre os resultados de saúde"7. E David Villalon, CEO da Maisa AI, resume por que a confiança é o gargalo em setores regulados: seu mercado é a automação de tarefas centrais em indústrias reguladas que precisam ser "auditáveis, reprodutíveis" e resistentes a alucinações da IA8.
Um sinal misto: venda de ações na C3.ai
Nem todo mundo que constrói produtos de IA empresarial está otimista o suficiente para segurar suas próprias ações. Thomas M. Siebel, CEO e presidente do conselho da C3.ai, vendeu aproximadamente 453 mil ações ordinárias Classe A em 11 de agosto de 2026, por cerca de 4,8 milhões de dólares, após o exercício de prêmios em ações — segundo um formulário 4 registrado na SEC9. Vendas de executivos após o exercício de opções são rotineiras e não indicam necessariamente falta de confiança na empresa, mas o momento — uma semana antes da publicação do relatório sobre a lacuna de confiança em IA agêntica — é o tipo de coincidência que vale registrar, sem exagerar seu significado.
O que observar a seguir
Para quem acompanha esse tema a partir do Brasil ou de Portugal, os pontos concretos para monitorar são: se a próxima leva de resultados trimestrais da Nvidia confirma a recuperação do caixa depois da queda registrada entre os dois primeiros trimestres fiscais mais recentes1; se novos relatórios sobre confiança em IA agêntica citam fontes com taxas de verificação mais altas do que os 0% medidos aqui4; e se outras empresas seguem o padrão Manulife–Microsoft e Box de amarrar a adoção de agentes a controles de governança explícitos, em vez de anunciar a tecnologia sem eles23. A lição central, por enquanto, é que o dinheiro está se movendo mais rápido do que a confiança — e que a origem de cada estatística sobre essa confiança merece tanta checagem quanto a própria tecnologia.


