sábado, 24 de outubro de 2026
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Corretoras e startups apostam em contratos de resultados e em identidade para agentes de IA, mas os números que sustentam a corrida são os da Robinhood

A Robinhood levará contratos binários sobre indicadores de empresas ao retalho, sem comissões até ao fim de 2026, e a Baselayer levantou 35 milhões de dólares para verificar agentes de IA. Cruzámos os dois movimentos com as contas auditadas da Robinhood, entregues à SEC.

LM Salvado
LM Salvado

October 24, 2026

Corretoras e startups apostam em contratos de resultados e em identidade para agentes de IA, mas os números que sustentam a corrida são os da Robinhood
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Nota ao leitor lusófono: o dossiê de que dispomos não contém dados sobre disponibilidade destes produtos no Brasil ou em Portugal, nem sobre regulação local. Tudo o que se segue assenta em empresas e reguladores norte-americanos. Não afirmamos que estes contratos possam ser negociados por si, e deve verificar essa questão junto da sua corretora e do regulador do seu país.

O que muda para quem investe por conta própria

A Cboe anunciou, na cimeira HOOD Summit, em Houston, que pretende lançar uma nova categoria de contratos binários ligados a indicadores de desempenho (KPI) de empresas concretas. O lançamento está previsto para outubro de 2026 e depende de aprovação regulatória, e a Robinhood será a primeira corretora de retalho a oferecê-los.1 Os produtos abrangem 23 empresas.1 Um contrato binário paga um valor fixo se uma condição se verificar e nada se não se verificar. Aqui, a condição é um número que a empresa vai divulgar, por exemplo num relatório de resultados.

Steve Quirk, citado no comunicado, descreve a ideia assim (citação no original em inglês): “Earnings contracts give retail investors another tool to inform their strategies and offer an even more precise way to trade on anticipated company KPIs.”1 A Cboe não cobrará comissões sobre estes contratos até ao fim de 2026, sujeito a revisão regulatória, e a Robinhood também os oferecerá sem comissões até ao fim do ano.7

Convém ler a oferta com atenção. “Zero comissões” descreve o preço de entrada, não o risco de perder dinheiro. A isenção tem prazo e depende de revisão regulatória.7 O comunicado da Cboe, nossa fonte principal, é um texto promocional. Medimos a fiabilidade histórica desta fonte: das 5.217 afirmações verificadas, 56% resistiram ao teste.1 É um valor modesto, e é por isso que, onde foi possível, ancorámos a análise em documentos oficiais.

O pano de fundo: a Robinhood já não é a empresa deficitária de 2023

A Robinhood está sujeita à supervisão da Securities and Exchange Commission (SEC).6 Os seus números, entregues àquele regulador e verificados por nós contra o documento original, mostram uma empresa que mudou de escala em dois anos.

A receita foi de 1,865 mil milhões de dólares em 2023, de 2,951 mil milhões em 2024 e de 4,473 mil milhões em 2025.2 Pelos nossos cálculos, isto equivale a crescimentos de cerca de 58% e 52% em anos consecutivos, e a uma receita 2,4 vezes superior à de 2023. O resultado líquido passou de um prejuízo de 541 milhões de dólares em 2023 para um lucro de 1,411 mil milhões em 2024 e de 1,883 mil milhões em 2025.2 Por ação, o resultado foi de −0,61 dólares em 2023, de 1,56 em 2024 e de 2,05 em 2025.2

A diferença entre o prejuízo de 2023 e o lucro de 2025 é de cerca de 2,4 mil milhões de dólares, calculada a partir dos dois valores verificados.2 Para o investidor comum, a leitura é simples: a empresa que vai distribuir estes contratos ao retalho tem hoje lucros consideráveis e capacidade para investir em novos produtos. O capital próprio subiu de 6,696 mil milhões de dólares em 2023 para 7,972 mil milhões em 2024.2

O dossiê contém, porém, um detalhe que desaconselha a leitura demasiado linear. O fluxo de caixa operacional foi de 1,181 mil milhões de dólares em 2023, ficou negativo em 157 milhões em 2024 e voltou a 1,638 mil milhões em 2025.2 O lucro de 2024 não se traduziu, portanto, em caixa gerada pela operação nesse ano. O dossiê não explica a razão, e não vamos especular sobre ela.

A despesa em investigação e desenvolvimento manteve-se relativamente estável: 349 milhões de dólares em 2023, 323 milhões em 2024 e 355 milhões em 2025.2 A receita mais do que duplicou enquanto este custo quase não se mexeu. Essa é, aliás, a lógica do negócio que a cimeira de setembro ilustrou. A Robinhood anunciou, entre outros produtos, o Robinhood Social, o Robinhood Agent, ordens de take-profit e stop-loss, perpétuos, negociação 24 horas por dia, previsões sobre resultados e alavancagem de 10 vezes em criptoativos.8 Não temos mais pormenores sobre nenhum destes produtos.

Caixa: um número que as fontes não escrevem da mesma forma

A caixa da Robinhood era de 5,829 mil milhões de dólares no segundo trimestre de 2023 e de 4,162 mil milhões no segundo trimestre de 2025.2 No segundo trimestre de 2026 subiu para 5,362 mil milhões, cerca de 29% acima do ano anterior, segundo o nosso cálculo.2 No primeiro trimestre de 2026 era de 5,012 mil milhões.2 Para ter uma referência dentro dos mesmos dados: a caixa de fim de 2025 foi de 4,261 mil milhões, e a de fim de 2023 de 4,835 mil milhões.2

Há aqui uma discrepância que mostramos em vez de esconder. Para 30 de setembro de 2025, uma fonte reporta 4,331 mil milhões de dólares e outra 4,3 mil milhões. A diferença, de cerca de 31 milhões, é de arredondamento. O valor de 4,331 mil milhões é o que consta do registo verificado.2 Não altera nenhuma conclusão, mas é o tipo de pormenor que se perde quando se copia um número de um artigo para outro.

A outra metade da história: quem confia nos agentes de IA?

Em paralelo, o capital de risco financia a infraestrutura para uma economia em que programas de IA, e não pessoas, fazem compras e pagamentos. A Baselayer, startup de São Francisco que ajuda instituições financeiras a verificar empresas e a avaliar risco de fraude, levantou 35 milhões de dólares numa Série A.3 A ronda foi liderada pela M13, com participação da Picus Capital, da Torch Capital, da Afore Capital e do investidor individual Matt Thompson, da Socure.9 Em 22 de setembro, a empresa lançou também a Agentic Identity Suite, que estende a sua rede de identidade das empresas aos agentes de IA que transacionam em nome delas.9

O problema que a Baselayer diz resolver é o da confiança. Jonathan Awad afirma, em inglês: “Agents spin up and they spin down. How can you trust this random one-task agent?”3 E avisa que, se os agentes não conseguirem provar que agem em nome de pessoas ou empresas legítimas, “agents will just get blocked everywhere”.3 O mesmo Awad diz que as relações com instituições financeiras demoram tipicamente 12 a 18 meses a estabelecer, e as parcerias com grandes comerciantes até 24 meses.3 É um dado útil para o leitor: este negócio avança devagar, e uma ronda de financiamento não garante receitas.

Há um aviso complementar do investidor Sean Jacobsohn, que fala sobre IA nas finanças em geral: “You don’t want AI doing calculations because it is not good at math.” E acrescenta que, quando se precisa de precisão, não se pode confiar na IA.4 A conclusão para o investidor comum é prática. A promessa de “agentes financeiros” deve ser avaliada pela capacidade de comprovar identidade e de errar pouco, não pelo entusiasmo do marketing. O Robinhood Agent aparece na lista de produtos da cimeira, mas o dossiê não diz o que faz, pelo que não o podemos avaliar.8

Jacobsohn dá ainda uma pista sobre onde o capital procura espaço. Para ele, seria muito difícil desafiar os produtos centrais da Workday, ADP, SAP, UKG e Dayforce, mas é mais fácil atacar os seus produtos secundários.4 Vê também oportunidade de disrupção na NetSuite e na Sage, com a mudança a acontecer primeiro nos segmentos mais pequenos.4 São opiniões de um investidor, não factos de mercado.

Consolidação, e uma nota de cautela

O nosso enquadramento temático identifica quatro aquisições em curso no setor: Circle–Tazapay, Grab–Atome, Socure–Fravity e Adobe–Rilo.10 O dossiê não traz valores, prazos nem condições destas operações, pelo que não podemos dizer mais do que isto. O que a análise Via News sugere, e deve ser lida como nossa hipótese e não como facto externo, é que o setor combina duas coisas: muito capital a financiar novas empresas e compradores a absorver as que já têm tecnologia testada.

A nota de cautela vem dos mercados de previsão. A Kalshi, regulada pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC) e financiada pela Sequoia Capital, tem a OracleX como concorrente.6 Em 20 de setembro, Benoît Dubosson publicou na rede X um padrão de transações de cerca de 5.500 dólares nos perpétuos de éter da Kalshi. A CNBC apurou que quase metade do volume em dólares desse dia vinha de transações entre 5.495 e 5.505 dólares.11 Não sabemos a causa, e o dossiê não indica qualquer conclusão da Kalshi ou do regulador. Mas o episódio ilustra que um mercado novo, com liquidez limitada, pode mostrar padrões que merecem escrutínio antes de se confiar no preço.

O que vigiar

  • Se a Cboe obtém a aprovação regulatória e lança os contratos em outubro, e se a isenção de comissões é mantida até ao fim de 2026 ou revista.7
  • O que fica depois de 2026: a isenção é temporária, e o custo real destes contratos só será conhecido quando as comissões forem definidas.
  • Se os próximos resultados trimestrais da Robinhood, que cruzaremos com os documentos da SEC, mantêm a trajetória da caixa e da receita.2
  • Se a Baselayer e concorrentes mostram clientes e receitas concretas, em vez de apenas rondas de financiamento, tendo em conta os prazos de 12 a 24 meses para fechar parcerias.3
  • Se a atividade invulgar na Kalshi tem explicação pública.11

Para o leitor no Brasil ou em Portugal, a pergunta prática continua sem resposta nos dados que temos: quando, e se, estes produtos chegam ao seu mercado. Até lá, o valor desta história está em perceber para onde vai o dinheiro e quem verifica as contas.

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Source Trace Score12 source documents12 with a live linkVerifiability: Strong
  1. [1]News articleYahoo Finance· September 30, 2026
    Cboe and Robinhood Announce Planned Launch of New KPI Contracts, Further Expanding Prediction Market Offerings
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LM Salvado is an AI possibilist — he takes the risks of AI seriously, and still sees the route through them. Founder of Via News Agency, an AI-native newsroom built on full source-traceability, he tracks how AI is reshaping markets, capital, and labor — the quiet shifts that happen before the headlines catch up.

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