Por que isso interessa a quem investe a partir do Brasil e de Portugal
Poucos leitores em São Paulo, Lisboa ou Porto têm ações diretas de fabricantes de chips americanos. Mas quem tem qualquer fundo de índice global ou fundo de tecnologia já tem exposição indireta a esta história: Nvidia, Micron e AMD estão entre as empresas mais pesadas dos índices tecnológicos que alimentam grande parte dos fundos vendidos como "ações globais" ou "tecnologia americana" no Brasil e em Portugal. Quando o noticiário fala em "corrida dos chips de IA", está a falar, em parte, do que já está dentro da carteira de muita gente sem que o saiba.
O pano de fundo é de otimismo declarado: os ETFs de semicondutores têm superado o desempenho do mercado mais amplo, e a casa de análise Lynx Equity Strategies classifica a Micron como "clear buy", com potencial de valorização de 33%, e a Sandisk com potencial de 49%1. São números que vale a pena guardar com uma reserva: a fonte onde essa avaliação foi divulgada, a Motley Fool, teve historicamente apenas 22% das suas afirmações confirmadas em verificações da Via News — o que não invalida o número, mas significa que não deve ser tratado como certeza.
A onda de capital que desafia a Nvidia
Enquanto isso, dinheiro novo está a apostar contra o modelo de computação dominado pelas GPUs da Nvidia. A Fab2, antiga Atomic Semi, fechou em 11 de setembro de 2026 uma ronda Série A de 500 milhões de dólares liderada pela Fundomo, com a Maverick Silicon entre os investidores — a primeira ronda que a empresa alguma vez divulgou, já avaliando-a em 3,7 mil milhões de dólares2. No mesmo dia, a Positron levantou uma Série C de 500 milhões de dólares, liderada por James Clark e pela NEA, com a Qatar Investment Authority entre os investidores, para desenvolver aceleradores de inferência de IA — avaliando a empresa em 5 mil milhões de dólares3. A Celero, por sua vez, reuniu 275 milhões de dólares para interconexões DSP coerentes, uma tecnologia de comunicação entre chips pensada como alternativa às ligações atuais. Juntas, estas três rondas somam mais de 1,27 mil milhões de dólares apostados especificamente contra a forma como a Nvidia constrói poder de computação hoje.
Para dar a dimensão: uma empresa que nunca antes tinha divulgado uma ronda de financiamento — a Fab2 — está a ser avaliada em quase oito vezes o valor que acabou de levantar. É o tipo de múltiplo que só faz sentido se investidores sérios acreditarem que o modelo atual de fabricação de chips tem uma fragilidade real a explorar.
Os incumbentes revidam: memória, interconexão e fotónica
A resposta dos gigantes estabelecidos não é ficar parada. Em 24 de julho de 2026, num encontro em São Francisco que juntou o presidente da Coreia do Sul, o CEO da Nvidia Jensen Huang, Sam Altman e os líderes da Samsung, SK Group, Hyundai Motor e Naver, foram assinados cerca de 950 mil milhões de dólares em novos acordos de IA num único dia4. Dentro desse pacote, a Nvidia ampliou o acordo com a SK Hynix para incluir o codesenvolvimento da próxima geração de memória de IA da SK Hynix — um movimento que, segundo o executivo Raj Mirpuri, vai "ajudar-nos a garantir um fornecimento estável de memória HBM"4, a memória de alta largura de banda essencial para treinar modelos de IA.
A defesa também passa pela infraestrutura de rede. Em 29 de julho de 2026, a GlobalFoundries assinou uma carta de intenções com o Departamento de Comércio dos EUA para um financiamento de 300 milhões de dólares destinado a acelerar a fotónica de silício — tecnologia que move dados à velocidade da luz dentro dos centros de dados. O responsável de tecnologia da AMD, Mark Papermaster, comentou que "a fotónica de silício e o encapsulamento avançado serão fundamentais para entregar a largura de banda, a eficiência energética e a conectividade a nível de sistema que a próxima geração de infraestrutura de clusters de IA vai exigir"5. No dia anterior, a francesa Bull anunciou uma parceria com a Kalray para desenvolver redes de alta velocidade compatíveis com o padrão aberto Ultra Ethernet, visando a próxima geração de supercomputadores de IA; o CEO da Kalray, Éric Baissus, descreveu o acordo como confirmação da "pertinência da nossa visão tecnológica"6. Vale registar que estas duas últimas fontes — casos GlobalFoundries e Bull/Kalray — vêm de comunicados classificados pela Via News com apenas 30% de afirmações confirmadas em verificações anteriores, o que pede cautela adicional sobre os detalhes, ainda que o facto central do anúncio seja verificável de forma independente.
Curiosamente, até potenciais concorrentes reforçam a posição da Nvidia: a Apple estaria a considerar entrar no mercado de servidores empresariais de IA pela primeira vez desde 2011, combinando os seus próprios chips com tecnologia de rede da própria Nvidia — não contra ela.
A Micron como termómetro: números que a Via News verificou diretamente
Se há uma empresa para acompanhar os números por trás do discurso, é a Micron, fabricante de memória cujas contas junto da SEC (a reguladora do mercado de capitais dos EUA) a Via News verificou diretamente. O investimento em capital (capex) da empresa quase dobrou em dois anos: 7,676 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2023, subindo para 8,386 mil milhões em 2024 e disparando para 15,857 mil milhões em 20257. No nível trimestral, o salto é ainda mais nítido — de 1,796 mil milhões de dólares no primeiro trimestre fiscal de 2024 para 3,206 mil milhões no mesmo trimestre de 2025 e 5,389 mil milhões no mesmo trimestre de 2026, quase o triplo em dois anos7.
A reserva de caixa da empresa também mudou de patamar: depois de oscilar entre 6,7 e 10,2 mil milhões de dólares ao longo de 2023, 2024 e da maior parte de 2025, o caixa da Micron saltou para 24,995 mil milhões de dólares no terceiro trimestre fiscal de 20267 — mais do que o dobro de qualquer valor registado nos dois anos anteriores. O custo dos produtos vendidos (cost of revenue) também subiu de forma constante, de 16,956 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2023 para 22,505 mil milhões em 20257, o que é coerente com uma fábrica a produzir mais memória para atender à procura de IA. São números que, tomados em conjunto, contam a história de uma empresa a apostar pesado — e a conseguir financiar essa aposta — precisamente no momento em que analistas a colocam entre as "compras claras" do setor.
Debaixo do otimismo: uma venda de insider e uma narrativa por confirmar
O enredo da narrativa mais ampla descreve fricção regulatória e de governança sob o entusiasmo — casos de tentativas de contorno de controlos à exportação por compradores chineses incluídos em listas negras. É importante ser honesto sobre os limites aqui: esta é uma leitura de conjunto da Via News sobre o tema, e o dossiê que sustenta esta reportagem não contém documentação detalhada sobre casos específicos de contorno de controlos à exportação — apenas o registo de que esse atrito existe como tema no debate do setor. Não vamos apresentar detalhes que não conseguimos verificar.
O que está documentado, e é factual, é uma venda de ações por um executivo do setor: o vice-presidente sénior de estratégia e marketing da Lattice Semiconductor, Esam Elashmawi, vendeu 16.773 ações da empresa em 16 e 17 de agosto de 2026, a um preço médio de 134,56 dólares por ação — 2,3 milhões de dólares no total — segundo um formulário Form 4 apresentado à SEC8. Vendas de insiders não são, por si só, um sinal de alarme: executivos vendem ações por muitas razões rotineiras. Mas nesta narrativa de otimismo bullish sobre o setor, cada venda deste tipo é o tipo de dado que os investidores mais cautelosos observam de perto.
Uma aposta radical: reinventar o chip pela raiz
Nem toda a disrupção vem de dinheiro novo em modelos conhecidos. A cofundadora e diretora de tecnologia da startup Vaire Computing, Hannah Earley, defende que a computação reversível — chips desenhados para recuperar a energia normalmente perdida como calor — é o caminho para tornar os centros de dados radicalmente mais eficientes. Ela compara a computação convencional a "atravessar uma cidade só para travar em cada cruzamento: o carro perde impulso e tem de queimar mais combustível para acelerar de novo"9, e descreve o seu ressoador central como "um pêndulo glorificado"9. Earley acredita que o futuro não está em refinar os chips existentes, mas em reconstruí-los desde a base com a reversibilidade em mente9.
É uma ideia genuinamente diferente das apostas em fabricação (Fab2) ou inferência (Positron) — mas aqui a Via News precisa de ser particularmente transparente: a fonte desta história, a MIT Technology Review, teve 0% das suas 11 afirmações verificáveis confirmadas nas checagens da Via News até agora. Isso não significa que a reportagem seja falsa; significa que, neste caso específico, não temos como corroborar de forma independente as afirmações técnicas feitas. Registamos a ideia porque é relevante para o tema da "arquitetura nova", mas o leitor deve tratá-la como uma tese de fundador a ser testada pelo mercado, não como um facto estabelecido.
O que observar a seguir
Três coisas para acompanhar com dados, não com manchetes: primeiro, se o capex da Micron continuar a subir ao ritmo dos últimos dois anos fiscais, isso confirma que os fabricantes de memória estão a apostar que a procura por HBM é estrutural, não uma bolha passageira. Segundo, se novas rondas de financiamento como as da Fab2 e da Positron se traduzirem em produtos reais e clientes pagantes — e não apenas em avaliações elevadas — nos próximos relatórios trimestrais. Terceiro, se os ratings de "compra forte" da Lynx Equity Strategies sobre a Micron e a Sandisk se confirmarem no desempenho real das ações nos próximos meses, o que testará se aquele otimismo tinha fundamento ou era apenas entusiasmo de mercado.


