O ponto de partida brasileiro: quando a política vira operação de câmbio
O Brasil realizou o segundo turno presidencial no domingo, 25 de outubro. Jair Bolsonaro, que os mercados de previsão davam como favorito, perdeu.1 Segundo o registro de eventos da Via News, empresas brasileiras compraram stablecoins (moedas digitais atreladas ao dólar) para se proteger do risco cambial. O volume de USDT no Mercado Bitcoin subiu quase 800% e o de Bitcoin subiu 865%.1 O registro de que dispomos está truncado nesse ponto e não traz o restante da frase. Por isso não vamos extrapolar nenhum outro número.
Duas coisas merecem atenção. A primeira é que os mercados de previsão erraram o resultado. Este texto não tem base para dizer o quanto isso importa para o futuro do setor, mas é um lembrete de que uma aposta em evento é uma estimativa, não um fato. A segunda é que a reação prática, o hedge cambial por meio de stablecoins, aconteceu fora do horário e das regras da bolsa tradicional. É esse pano de fundo que ajuda a entender para onde a infraestrutura financeira dos EUA está caminhando.
Mercados que ficam abertos quase o dia inteiro
A Nasdaq afirma que a transição do setor para um pregão de 23 horas é esperada para domingo, 6 de dezembro de 2026. A data depende de a infraestrutura de dados consolidada (SIP) estar pronta e de mudanças em regras da SEC. Sujeita à aprovação da SEC, a Nasdaq acrescentaria uma sessão das 21h às 4h (horário de Nova York).2 A CFTC, reguladora dos derivativos nos EUA, anunciou que fará em 15 de dezembro uma mesa-redonda com o setor sobre a viabilidade de levar os mercados de derivativos para o regime 24 horas por dia, sete dias por semana.3
Para o investidor brasileiro, o ponto prático é este: quem investe em ativos americanos pela corretora brasileira hoje convive com horários limitados. Os eventos acima apontam para a redução dessa limitação, mas nenhum deles está concluído. A Nasdaq e a CFTC falam em expectativa e em consulta, não em decisão tomada.
Contratos de eventos: o que a Robinhood já lucra com eles
Em 30 de setembro, a Cboe anunciou, durante o evento HOOD Summit da Robinhood em Houston, que pretende lançar uma nova categoria de contratos binários ligados a indicadores de desempenho (KPIs) de empresas específicas. O lançamento está previsto para outubro de 2026 e depende de aprovação regulatória. A Robinhood será a primeira corretora de varejo a oferecê-los.4 Steve Quirk resumiu a proposta: "Earnings contracts give retail investors another tool to inform their strategies and offer an even more precise way to trade on anticipated company KPIs." (citação no original em inglês)4
Convém saber o quanto essa fonte merece de confiança. A medição de confiabilidade da Via News mostra que apenas 53% de 6.322 afirmações checadas dessa origem se sustentaram.4 Trata-se de um comunicado da própria empresa. O que ele nos diz é a intenção, e não o resultado.
O resultado aparece nos números da Robinhood. No terceiro trimestre, segundo o registro de eventos da Via News, a receita com contratos de eventos subiu mais de seis vezes, para US$ 173 milhões. A receita com cripto caiu 55% em relação ao ano anterior, para US$ 120 milhões, e o lucro líquido caiu 14%, para US$ 476 milhões.5 Ou seja, o produto novo cresce enquanto o antigo recua, mas o lucro do trimestre não acompanhou.
A trajetória auditada da Robinhood
Os dados abaixo vêm de arquivos da SEC e foram checados. A receita anual da Robinhood foi de US$ 1,865 bilhão em 2023, US$ 2,951 bilhões em 2024 e US$ 4,473 bilhões em 2025.6 Em dois anos a receita multiplicou-se por cerca de 2,4 (cálculo da Via News a partir desses números).
O lucro acompanhou. A empresa teve prejuízo líquido de US$ 541 milhões em 2023, lucro de US$ 1,411 bilhão em 2024 e de US$ 1,883 bilhão em 2025.6 O fluxo de caixa operacional foi positivo em US$ 1,181 bilhão em 2023, negativo em US$ 157 milhões em 2024 e de US$ 1,638 bilhão em 2025.6 Esse número negativo em 2024 é um lembrete de que o lucro contábil e o caixa gerado pela operação nem sempre andam juntos.
O gasto com pesquisa e desenvolvimento ficou praticamente estável: US$ 349 milhões, US$ 323 milhões e US$ 355 milhões nos três anos.6 O patrimônio dos acionistas passou de US$ 6,696 bilhões em 2023 para US$ 7,972 bilhões em 2024.6
O caixa, por sua vez, não cresceu de forma linear. Era de US$ 4,835 bilhões no fim de 2023, caiu para US$ 4,332 bilhões em 2024 e para US$ 4,261 bilhões em 2025.6 Voltou a subir em 2026, para US$ 5,012 bilhões no primeiro trimestre e US$ 5,362 bilhões no segundo.6 Há uma divergência de arredondamento nas fontes: para 30 de setembro de 2025, um registro traz caixa de US$ 4,331 bilhões e outro, US$ 4,3 bilhões, uma diferença de cerca de US$ 31 milhões. Usamos o valor mais preciso, o da fonte verificada.6
Reguladores correndo atrás
Em 27 de outubro, a CFTC processou o estado de Utah para impedir que leis estaduais fechem mercados de contratos registrados na própria agência. A CFTC disse ter iniciado processos contra outros nove estados.7 O conflito entre autoridade federal e estadual sobre contratos de eventos, portanto, está longe de resolvido. Nos mercados cripto, a Coinbase fixou um prazo de três dias ligado ao regime europeu MiCA, convertendo automaticamente stablecoins não conformes (USDT, PayPal e uma moeda ligada a Trump) em USDC e orientando usuários a não depositá-las após 30 de outubro.8 Para o leitor brasileiro, isso importa porque o USDT foi exatamente a moeda cujo volume disparou no Mercado Bitcoin.1 Não há, porém, no nosso material, qualquer indicação de que a regra europeia se aplique diretamente a corretoras brasileiras.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse em 27 de outubro que stablecoins e ativos digitais poderiam reforçar o domínio do dólar e que o Tesouro poderia coordenar com a SEC e a CFTC as regras para cripto.9
A terceira frente: agentes de IA precisam de identidade
A Baselayer, startup de São Francisco que ajuda instituições financeiras a verificar empresas e avaliar risco de fraude, levantou US$ 35 milhões em uma Série A liderada pela M13, com a participação da Picus Capital, para estender sua tecnologia de identidade a agentes de IA.10 O cofundador Jonathan Awad descreveu o problema: "Agents spin up and they spin down. How can you trust this random one-task agent?"10 E avisou que, sem comprovar que agem em nome de pessoas ou empresas legítimas, "agents will just get blocked everywhere".10 Segundo ele, relações com instituições financeiras costumam levar de 12 a 18 meses para se estabelecer, e parcerias com grandes comerciantes, até 24 meses.10 (As citações estão em inglês, como no original.)
Aqui também vale o aviso de confiabilidade: a fonte, a Crunchbase News, tem 49% de 41 afirmações checadas que se sustentaram.10 Trata-se de uma amostra pequena e de uma taxa baixa; leia a entrevista como depoimento de parte interessada.
Há também uma nota de cautela vinda do capital de risco. Sean Jacobsohn, da Norwest, disse: "You don't want AI doing calculations because it is not good at math." Segundo ele, há tarefas em que a IA funciona sem produzir números exatos, mas, "when you need precision, accuracy and calculations, you can't rely on AI for that."11 Para quem pensa em entregar a gestão da carteira a um agente, é um aviso a levar a sério.
O que acompanhar
- 6 de dezembro: se a Nasdaq confirmará o pregão de 23 horas, dependente do SIP e da SEC.2
- 15 de dezembro: a mesa-redonda da CFTC sobre derivativos 24/7.3
- Contratos KPI da Cboe: se saem em outubro, como previsto, e se dependem de aprovação regulatória.4
- CFTC contra os estados: o desfecho do caso de Utah e dos outros nove processos.7
- Contratos de eventos na Robinhood: se a receita de US$ 173 milhões se sustenta e se passa a compensar a queda do lucro e da receita com cripto.5


