O que importa agora, e o que podemos garantir
Dois marcos regulatórios e científicos estão a poucas semanas. A Moderna e a Merck planeiam apresentar resultados detalhados da vacina personalizada de mRNA intismeran no ESMO, a 24 de outubro.1 A 14 de novembro termina o prazo da FDA (data PDUFA) para o pedido de licença da Summit para o ivonescimab, com base nos resultados do ensaio HARMONi.1 Para quem investe a partir do Brasil ou de Portugal, convém separar duas coisas: o que está confirmado e o que ainda é promessa.
Uma nota de honestidade: o material que reunimos não traz dados específicos sobre o mercado lusófono, como aprovações na ANVISA ou no INFARMED, ou preços locais. Por isso não vamos inventar um ângulo local. A história global é esta, contada com o que sabemos verificar. Também não sabemos que peso a Merck tem nos fundos de índice que o leitor possa ter. Esse dado não está no material, e não o estimamos.
Os números verificados: a Merck por dentro
Os dados abaixo foram confirmados contra registos da SEC, o regulador dos mercados dos EUA. São a parte mais sólida deste texto.
O investimento em instalações e equipamento (capex) da Merck foi de US$ 3,863 mil milhões em 2023 e de US$ 3,372 mil milhões em 2024.2 Subiu para US$ 4,112 mil milhões em 2025,2 cerca de 22% acima de 2024, conta nossa. Para ter uma ideia de escala, são perto de US$ 11 milhões por dia, também por cálculo nosso. No primeiro trimestre de 2026 o capex foi de US$ 991 milhões, contra US$ 1,328 mil milhões no mesmo período de 2025.2 Ou seja, o ritmo trimestral caiu cerca de um quarto.
O custo da receita (o que custa produzir e entregar o que se vende) também subiu. Foi de US$ 3,557 mil milhões no 2.º trimestre de 2025 e de US$ 4,395 mil milhões no 2.º trimestre de 2026,2 um aumento de cerca de 24%, conta nossa. No 1.º trimestre foi de US$ 3,419 mil milhões em 2025 e de US$ 4,195 mil milhões em 2026.2 Os dados que temos não incluem a receita da Merck. Por isso não podemos dizer se a margem piorou ou se o custo cresceu junto com as vendas.
A posição de caixa oscila muito. Fechou 2024 em US$ 13,242 mil milhões e 2025 em US$ 14,565 mil milhões.2 Chegou a US$ 18,169 mil milhões no 3.º trimestre de 2025,2 mas era de US$ 5,327 mil milhões no 1.º trimestre de 20262 e de US$ 6,849 mil milhões no 2.º trimestre de 2026.2 A queda de cerca de US$ 9 mil milhões entre o fim de 2025 e março de 2026 é real nos registos. Os dados que temos não explicam o motivo, e não vamos especular. O leitor deve evitar ler o saldo de caixa de um único trimestre como sinal de força ou de fraqueza.
A vacina personalizada: o dado que falta
Segundo o registo de eventos que usamos, uma vacina personalizada desenvolvida pela Merck e pela Moderna impediu o regresso de melanoma (cancro de pele) num ensaio descrito como histórico, em 19 de agosto.3 Esse registo não traz números de eficácia, tamanho do ensaio nem estatísticas. É exatamente isso que os dados detalhados do ESMO, a 24 de outubro, deverão mostrar. A Moderna e a Merck dizem também que vão dialogar com os reguladores sobre possíveis pedidos de aprovação.1 Até lá, “impediu o regresso” é uma manchete, e ainda não é uma conclusão.
ADC mais biespecífico: uma aposta com data marcada
A 2 de outubro, a Summit anunciou um acordo de colaboração clínica com a Daiichi Sankyo e a AstraZeneca para testar o ivonescimab com o Datroway em vários tumores sólidos, com intenção de incluir cancro da mama e do pulmão.4 O pedido de licença do ivonescimab tem decisão da FDA prevista para 14 de novembro de 2026.1 O ponto de partida para a combinação com o Datroway é o cancro da mama triplo-negativo em primeira linha. Nesse mesmo cenário, o CHMP (comité de medicamentos da Agência Europeia) recomendou em 24 de julho a Trodelvy da Gilead com Keytruda, em doentes PD-(L)1 positivos.5 O oncologista Evandro de Azambuja disse que “pessoas com cancro da mama triplo-negativo metastático precisam de opções eficazes o mais cedo possível no curso da doença”.5 Quem espera que a nova combinação ocupe a primeira linha vai encontrá-la a competir com uma já recomendada na Europa.
IA na descoberta: ambição forte, evidência frágil
A AstraZeneca descreve um “laboratório do futuro”. Puja Sapra explica a ideia numa analogia: “Onde um carro autónomo usa sensores e modelos para navegar, este sistema usa IA para fazer previsões, sistemas robóticos para executar experiências e instrumentos para gerar dados.”6 (tradução nossa do original em inglês). Segundo Sapra, os dados são o diferencial: “Data is our differentiator.”6 Ela admite também uma limitação central: “One of the hardest problems in de novo design is predicting whether a computationally generated molecule will be safe in the human body.”6 E afirma que, com sistemas mais autónomos, a supervisão humana continua no centro.6
Aqui mostramos as costuras. O texto de onde vêm essas declarações, publicado na MIT Technology Review, teve 0% das 11 afirmações verificadas confirmadas no nosso sistema.6 Isso não prova que as citações sejam falsas. Mostra que não conseguimos confirmar, de forma independente, os factos desse texto. Tratamos as frases como declarações de intenção da empresa, e não como resultados demonstrados. Os dados que temos não mostram nenhum medicamento aprovado que tenha sido desenhado dessa forma.
Resultados comerciais: o sólido e o apertado
A Novocure reportou receita trimestral de US$ 184 milhões, mais 16% em um ano, com crescimento de 18% nos doentes ativos.7 Recebeu a marca CE para o Optune Pax no cancro do pâncreas localmente avançado, com a Alemanha como primeiro mercado europeu, e tinha mais de 280 doentes ativos nesse produto em 30 de junho de 2026.7 Frank Leonard resumiu: “Este foi o nosso melhor trimestre até hoje, com receitas líquidas e doentes ativos em níveis recorde.”7 (tradução nossa).
No outro extremo, a ADC Therapeutics cortou pessoal. Diz que a medida deve gerar “US$ 10 milhões em poupança anualizada de custos” e que mantém caixa suficiente “até 2028”.8 A Telix, por seu lado, dosou o primeiro doente no ensaio de fase 3 LUTEON, do TLX250-Tx, em cancro renal de células claras.9 Tinha-se também indicado que a Kiniksa e a OPKO tiveram resultados e orientações diferentes, mas os documentos de base não nos permitem detalhar esses casos.
O que acompanhar
- 24 de outubro: os dados detalhados da intismeran no ESMO. O que importa é o tamanho do ensaio e a redução do risco de recidiva.1
- 14 de novembro: a decisão da FDA sobre o ivonescimab.1
- Merck: se o capex trimestral continua abaixo do de 2025 e se o custo da receita acompanha as vendas.2
- Fontes: a IA na descoberta só ganha crédito com candidatos que avancem em ensaios, e não com declarações.


