Um mercado dividido contra si mesmo
Para investidores brasileiros e portugueses com exposição a fundos negociados em bolsa (ETFs) ligados a semicondutores — incluindo veículos alavancados amplamente acessíveis através de corretoras internacionais — agosto de 2026 tem sido um teste de nervos. O índice setorial SOXX caiu 25% em relação aos máximos, e ETFs alavancados de semicondutores chegaram a perder 62% do seu valor de pico1. O caso mais ilustrativo é o ProShares Ultra Semiconductors (ticker USD, 2x alavancado): a própria gestora do fundo reportou que, em 5 de junho de 2026, o USD estava "up about 69% year to date, from $52.45 on December 31, and 196% over one year, from $29.94 on June 5, 2025"2 — um ganho expressivo ao qual se seguiu, semanas depois, uma reportagem intitulada "USD Implodes 17% And June 8th Could Be Worse"2, evidenciando a volatilidade extrema destes instrumentos alavancados.
A Micron Technology ilustra a mesma montanha-russa fora do universo dos ETFs: a ação caiu quase 40% em relação à máxima histórica a partir de julho de 2026, antes de recuperar 10% desde os mínimos — deixando o título ainda cerca de 30% abaixo do pico, segundo dados verificados pela Via News referentes a 9 de agosto de 20263.
Os negócios não pararam
O que torna esta correção incomum é que ocorre em paralelo a uma onda contínua de acordos industriais. Em 26 de julho de 2026, à margem de uma cimeira em São Francisco que reuniu o presidente sul-coreano Lee Jae Myung, executivos da Samsung, SK Group, Hyundai Motor e Naver, e nomes como Jensen Huang, foram assinados aproximadamente 950 mil milhões de dólares em novos acordos de IA4. Um deles envolve diretamente a Nvidia e a SK hynix: segundo Raj Mirpuri, "the expansion will include a co-develop opportunity for us on the next-generation SK Hynix AI memory, and this will help us secure a stable supply of HBM memory"4 — memória de alta largura de banda (HBM), o insumo mais disputado da atual geração de aceleradores de IA.
Três dias depois, a GlobalFoundries assinou uma carta de intenções com o Departamento de Comércio dos EUA para um financiamento de 300 milhões de dólares destinado à fotónica de silício, tecnologia que sustenta os centros de dados de IA. Mark Papermaster, da AMD, comentou: "silicon photonics and advanced packaging will be key to delivering the bandwidth, energy efficiency, and system-level connectivity required for the next generation of AI cluster infrastructure. We welcome [GF's continued U.S.-based investment]"5. Já em 23 de julho, a própria AMD tinha fechado uma parceria com a Cerebras para combinar as GPUs Instinct com o Wafer-Scale Engine da Cerebras num único fluxo de inferência desagregada, com disponibilidade prevista via Cerebras Cloud na segunda metade de 20266.
Na Europa, a francesa Kalray anunciou, também a 28 de julho, uma colaboração com a Bull em torno de redes de alta velocidade para infraestrutura de IA e computação de alto desempenho, incluindo compatibilidade com o novo padrão aberto Ultra Ethernet. Éric Baissus, CEO da Kalray, descreveu o acordo como confirmação "de la pertinence de notre vision technologique et la qualité des innovations développées par nos équipes"7. No mesmo dia, a Skyworks e a Qorvo — fornecedoras de componentes de radiofrequência em processo de fusão — divulgaram a equipa de liderança prevista para a empresa combinada, com Bob Bruggeworth a destacar que o anúncio "reflects the strong partnership that has shaped our integration planning efforts from the very beginning"8.
Mais discretamente, a taiwanesa Phison anunciou em junho uma colaboração com a Intel para expandir a memória disponível em PCs de IA através da tecnologia aiDAPTIV, permitindo correr localmente modelos maiores. Segundo KS Pua, "AI PCs are evolving into platforms for more sophisticated local AI workloads, including agentic applications and larger MoE models"9. E a Allegro MicroSystems reforçou o seu conselho de administração com Brian White, antigo CFO de várias empresas de semicondutores cotadas — a empresa apresenta-se como alavancando "more than three decades of expertise in magnetic sensing and power ICs to propel electrification, automation, AI data center, and robotics forward"10.
Os números por trás das manchetes
Fora dos grandes nomes, os relatórios trimestrais de fornecedores mais pequenos mostram como a procura de IA está a chegar — de forma desigual — a toda a cadeia. A Vicor Corporation reportou receita nos últimos doze meses de 471,7 milhões de dólares e lucro líquido de 136,7 milhões de dólares, com uma capitalização de mercado de 11,3 mil milhões de dólares no fecho de mercado de 6 de julho de 202611. A empresa espera ainda que o seu principal cliente de computação transite da tecnologia Gen 4 para Gen 5/VPD na segunda metade de 2026, com o ramp-up previsto antes do final do ano11 — um marco concreto a observar nos próximos trimestres.
A Solitron Devices, fabricante norte-americana de semicondutores para aplicações críticas, reportou vendas líquidas de aproximadamente 5,44 milhões de dólares no primeiro trimestre fiscal de 2027, um crescimento de 101% face aos 2,70 milhões de dólares do mesmo período do ano anterior, com a carteira de encomendas a subir 28% para 23,34 milhões de dólares, face a 18,26 milhões de dólares12. A empresa afirmou esperar que "sales [continue] to be at this level or greater for the remainder of the 2027 fiscal year"12, impulsionada por esse backlog forte.
Nem todos os sinais são positivos: a Amkor Technology, fornecedora de serviços de embalagem e teste de semicondutores, projetou vendas líquidas do terceiro trimestre entre 1,95 mil milhões e 2,05 mil milhões de dólares — abaixo do consenso de 2,11 mil milhões de dólares13, contribuindo para a fraqueza mais ampla nas ações de fabricantes de chips registada a 28 de julho de 2026, dia em que o Nasdaq 100 caiu para uma mínima de 2,75 meses apesar de resultados melhores do que o esperado da Coca-Cola e da Sherwin-Williams noutros setores13.
A leitura da Via News
Na análise da Via News, a divergência entre a atividade contínua de expansão — parcerias, acordos de fornecimento, orientações de receita e fusões como a da Skyworks com a Qorvo — e a deterioração do sentimento acionista é típica de uma correção tardia de ciclo: os fundamentais da indústria mantêm-se sólidos, mas o mercado acionista tinha precificado expectativas superiores àquelas que se confirmam trimestre a trimestre. A recuperação de 10% da Micron desde os seus mínimos3 é, na nossa leitura, um possível sinal inicial de estabilização — não, porém, um facto medido de reversão de tendência, apenas um ponto de dados isolado que caberá aos próximos trimestres validar ou desmentir.
Vale ainda notar que boa parte das declarações citadas neste artigo — orientações de receita, comentários sobre integração de fusões, avaliações de parcerias — provém de comunicados de imprensa cuja fiabilidade histórica medida pela Via News é limitada. Das agências responsáveis pelos comunicados da Allegro, da GlobalFoundries, da AMD/Cerebras, da Kalray/Bull e da Solitron, apenas 23% de 2.573 afirmações verificadas anteriormente confirmaram-se corretas5671012; para os comunicados da Nvidia/SK hynix, da Phison/Intel e da Skyworks/Qorvo, a taxa medida foi de 48% de 3.970 afirmações489. Isto não significa que os factos financeiros específicos citados aqui sejam falsos — os números da Vicor e da Solitron, por exemplo, provêm de relatórios de resultados formais — mas justifica cautela redobrada com projeções e linguagem otimista vinda de comunicados corporativos, sobretudo os relativos a fusões e integrações ainda em curso.
O que observar a seguir
Três pontos concretos vão ajudar a determinar se esta é uma correção passageira ou o início de algo mais duradouro: se a recuperação da Micron se mantém ou reverte nas próximas semanas3; se a Vicor confirma o ramp-up da tecnologia Gen 5/VPD com o seu principal cliente antes do final de 2026, como anunciado11; e se a Amkor confirma — ou revê ainda mais em baixa — a sua previsão de vendas para o terceiro trimestre, um indicador direto da procura real por serviços de embalagem avançada para chips de IA13.


