O que os números verificados dizem — e o que não dizem
Quem acompanha a IA a partir de São Paulo, do Rio ou de Lisboa costuma ler a notícia como se fosse só sobre chips. Esta semana ela foi mais ampla. Antes de entrar nos anúncios, uma ressalva de transparência: o material que verificámos não contém nenhum dado específico sobre o Brasil ou Portugal. Não vamos inventar um ângulo local. Vamos apresentar o que está comprovado e deixar claro o que falta.
O alicerce mais sólido é a Nvidia, fornecedora de chips de IA, cujos números vêm de registos na SEC, o regulador do mercado de capitais dos EUA. O custo de produzir o que vendeu foi de 16,621 mil milhões de dólares no ano fiscal de 20241, 32,639 mil milhões no de 20251 e 62,475 mil milhões no de 20261. Em dois anos, esse custo quase quadruplicou. Como comparação, o valor de 2026 é pouco menos de quatro vezes o de 2024.
Os trimestres confirmam o ritmo. O primeiro trimestre do ano fiscal de 2027 registou 20,458 mil milhões de dólares de custo de receita1, contra 17,394 mil milhões no mesmo trimestre do ano fiscal anterior1. O crescimento continua, embora mais lento do que o salto entre anos inteiros.
As costuras: lucro por ação e caixa
O lucro por ação verificado da Nvidia foi de 11,93 dólares no ano fiscal de 20242, 2,94 no de 20252 e 4,90 no de 20262. Quem olhar para esta sequência sem contexto vai achar que o lucro por ação caiu mais de 70% de um ano para o outro. O dossiê não explica a quebra. Não afirmamos qual é a causa. A leitura honesta é que estes três valores, lado a lado, não permitem concluir nada sobre a rentabilidade, e que seria preciso confirmar se foram calculados na mesma base antes de comparar.
O caixa também não conta uma história simples. A Nvidia tinha 10,605 mil milhões de dólares em caixa no fim do ano fiscal de 20263. No primeiro trimestre do ano fiscal de 2026 eram 15,234 mil milhões3, e no primeiro trimestre de 2027 foram 13,237 mil milhões3. Caixa não é lucro, e o dossiê não traz as receitas. Por isso não podemos calcular margens nem dizer se a empresa está a ganhar mais ou menos por dólar vendido. O que os dados sustentam é que o custo de entregar chips de IA subiu muito, e isso é compatível com a procura forte descrita no tema, mas não a prova por si só.
A rede: Cisco e Nvidia apostam em padrões abertos
Na camada de infraestrutura, a Cisco usou o OCP Global Summit 2026 para apresentar silício, sistemas e óptica para IA aberta. Os primeiros sistemas com o chip G300 já estão a ser enviados a clientes, há um novo silício G302 de 1,6T, e sistemas com o P200 estão em produção4. A Cisco e a Nvidia também planeiam desenvolver uma especificação aberta para óptica pluggable de 400G por via4. Kevin Wollenweber, da Cisco, resumiu a lógica: «AI is redefining what it means to scale infrastructure. It's no longer just about individual data centers or clusters, but how we connect compute at massive scale without compromising performance or resilience.»4
Em português claro: o gargalo deixou de ser apenas o chip. É a ligação entre milhares deles. Isso importa porque quem constrói essa rede decide quanto custa treinar e servir modelos de IA, e esse custo acaba por chegar ao preço dos serviços que o leitor usa.
Dados do mundo real para robôs
Noutra camada, a Hesai lançou o Kosmo, um motor de dados 3D que combina uma câmara espacial de IA, a Kosmo One, com uma plataforma na nuvem, a Kosmo World, para transformar ambientes físicos em espaços digitais 3D para treino de robôs, modelos do mundo e criação de conteúdo imersivo5. No lançamento foram anunciadas parcerias com as empresas de IA incorporada Galbot e Dexmal5, e aplicações demonstradas com o RenderMan da Pixar e com a Amap5. Shaoqing Xiang disse: «Physical AI needs real-world data that is accurate, affordable and available at scale.»5
É um lançamento de produto, não um resultado. Nada no dossiê indica quantos clientes o Kosmo tem ou quanto vai render.
Agentes de software: promessa e evidência
Na camada de software, a Zeta apresentou o AthenaOS. David A. Steinberg afirmou que «AthenaOS marks an expansion of Zeta's intelligent AI infrastructure beyond marketing»6. A TELUS Digital tornou-se parceira de implementação da Parloa, plataforma europeia de agentes de IA para atendimento ao cliente7. Chris Silver, da Parloa, apontou que «consumer expectations are high, and brand loyalty is fragile»7.
Há um indício de que consumidores já agem sobre recomendações de IA, mas com limites claros. Um inquérito da Snipp a 1.000 adultos dos EUA que usam IA regularmente concluiu que 61,8% já compraram depois de uma recomendação de IA8, e que 41,6% começam as pesquisas de produto com IA8. A amostra é americana e autosselecionada entre utilizadores frequentes, por isso não representa leitores brasileiros ou portugueses, nem a população em geral.
A tensão de segurança
O lado menos confortável vem da OpenAI. Mark Chen, diretor de investigação, disse numa entrevista: «I do kind of reject the premise that OpenAI is a company with visible impacts in the world and therefore OpenAI is not training safe and aligned models.»9 A frase é uma defesa, não uma prova. As fontes do dossiê sobre a resignação de um responsável de segurança, sobre compromissos de monitorização e sobre a margem da Samsung ou a pressão da Acer sobre a Micron não trazem dados que possamos verificar, por isso não os tratamos como factos.
Quão fiável é a fonte
Uma parte importante da confiança é saber de onde vêm as notícias. Os comunicados da NewsEOD usados aqui têm uma fiabilidade medida de 56%: de 4.960 afirmações verificadas, 56% resistiram4. A newsletter da MIT Technology Review, de onde vem a citação de Chen, tem 0% de 11 afirmações verificadas9, amostra pequena, mas que não permite apresentar o seu conteúdo como confirmado. Os anúncios acima são o que as empresas dizem de si próprias, e foram tratados assim.
O que observar
Primeiro, a próxima série de resultados da Nvidia: se o custo de receita continuar a crescer, e se as receitas acompanharem, para que se possa finalmente calcular margens. Segundo, se a especificação aberta de óptica de 400G por via sair do papel. Terceiro, se o Kosmo e o AthenaOS passam de anúncio a clientes pagantes. Para o leitor lusófono, a pergunta prática é se esta cadeia de custos chega aos preços dos serviços de IA que usa. O dossiê não responde a isso, e dizer que não responde é a parte honesta da análise.
Sources:
1 Via News verified data — Nvidia cost_of_revenue, SEC filing (FY 2024, FY 2025, FY 2026, Q1 2026, Q1 2027); Cisco claim: NewsEOD, "Cisco Advances Scalability and Openness at OCP 2026" (2026-10-12) is source 4
2 Via News verified data — Nvidia eps, SEC filing (FY 2024, FY 2025, FY 2026)
3 Via News verified data — Nvidia cash, SEC filing (FY 2026, Q1 2026, Q1 2027)
4 NewsEOD, "Cisco Advances Scalability and Openness at OCP 2026" (2026-10-12)
5 NewsEOD, "Building the Data Infrastructure for Physical AI: Hesai Launches Kosmo 3D World Data Engine" (2026-10-14)
6 "Zeta Live 2026: Zeta Introduces AthenaOS, the Enterprise Intelligence Operating System that Turns Intelligence into Growth" (2026-10-08)
7 NewsEOD, "TELUS Digital Partners with Parloa to Help Enterprises Build and Manage AI Agents for Stronger Customer Relationships" (2026-10-14)
8 NewsEOD, "Snipp Survey Finds AI is Reshaping the Shopper Journey, with 61.8% of AI Users Having Purchased After an AI Recommendation" (2026-10-06)
9 MIT Technology Review, "The Download: OpenAI’s chief research officer explains its hacking response" (undated)


