Um aviso antes de tudo: o material verificado que temos não contém números específicos sobre o Brasil ou Portugal. Não vamos inventar uma ligação local. O que há é uma cadeia global de chips sob pressão, e é por ela que celulares, nuvem e serviços de IA usados em português acabam ficando mais caros ou mais escassos. A análise de narrativa da Via News indica que a escassez provocada pela demanda de IA pode durar de 12 a 18 meses. É uma leitura nossa, não um fato externo.1 (Nos números, usamos "bilhões" no sentido brasileiro; em Portugal, "mil milhões".)
O número mais sólido: a Micron dobrou o ritmo de investimento
A Micron Technology fabrica memória, um componente que os chips de IA consomem em grande quantidade. Seus balanços na SEC, verificados, mostram o investimento em fábricas e equipamentos (capex) assim: US$ 7,676 bilhões no ano fiscal de 2023, US$ 8,386 bilhões em 2024 e US$ 15,857 bilhões em 2025.2 De 2024 para 2025 foi um salto de cerca de 89%. Em dois anos, o gasto mais que dobrou.2
O primeiro trimestre mostra a mesma aceleração: US$ 1,796 bilhão no primeiro trimestre fiscal de 2024, US$ 3,206 bilhões no de 2025 e US$ 5,389 bilhões no de 2026.2 Em dois anos, o gasto trimestral foi a cerca de três vezes o nível inicial. Uma empresa só faz isso quando acredita que a demanda não é passageira. Também é isso que se espera de quem tenta resolver uma escassez, já que fábricas levam tempo para ficar prontas.
Caixa e custos: o que os balanços dizem, e o que não dizem
O caixa da Micron acompanhou o gasto. Era de US$ 7,552 bilhões no segundo trimestre fiscal de 2025 e passou a US$ 13,908 bilhões no mesmo trimestre de 2026. No terceiro trimestre de 2026 chegou a US$ 24,995 bilhões, contra US$ 10,163 bilhões um ano antes, ou seja, cerca de 2,5 vezes.3
O custo da receita (o que a empresa gasta para produzir o que vende) subiu menos. Foi de US$ 5,090 bilhões no segundo trimestre de 2025 para US$ 6,105 bilhões no mesmo período de 2026, cerca de 20% a mais.4 No ano fiscal inteiro, passou de US$ 19,498 bilhões em 2024 para US$ 22,505 bilhões em 2025.4 O dossiê, porém, não traz a receita da Micron. Por isso não podemos afirmar que as margens melhoraram, apenas que o caixa cresceu bem mais que o custo. Lemos como sinal de empresa com folga para investir, mas isso não é uma conclusão sobre lucro.
Garantir a oferta: Nvidia e SK Hynix
Em 24 de julho, a cúpula em San Francisco reuniu o presidente sul-coreano Lee Jae Myung, Jensen Huang e Sam Altman. Segundo o NewsEOD, saíram dela cerca de US$ 950 bilhões em novos acordos de IA, perto de 60 vezes o capex anual da Micron em 2025.3 Dentro desse movimento, Raj Mirpuri, da Nvidia, disse sobre a expansão com a SK Hynix (tradução nossa): "A expansão incluirá uma oportunidade de co-desenvolvimento conosco na próxima geração de memória de IA da SK Hynix, e isso nos ajudará a garantir um fornecimento estável de memória HBM."3 A palavra importante é estável: quando a oferta é curta, quem compra tenta assegurar o fornecimento antes dos outros.
Consolidação e o ângulo europeu
A Skyworks e a Qorvo anunciaram em 28 de julho a futura equipe de liderança da empresa combinada, quando a transação pendente for concluída. O CEO da Skyworks, Bob Bruggeworth, afirmou (tradução nossa): "O anúncio de hoje reflete a forte parceria que moldou nosso planejamento de integração desde o início."5
Para o leitor de Portugal, o movimento mais próximo é europeu. No mesmo dia, a francesa Bull e a Kalray (Euronext Growth Paris) anunciaram uma colaboração em redes de alta velocidade para IA e computação de alto desempenho, incluindo compatibilidade com o Ultra Ethernet, um padrão aberto novo.6 Éric Baissus, da Kalray, disse (tradução nossa do francês): "Este acordo com a Bull confirma mais uma vez a pertinência da nossa visão tecnológica e a qualidade das inovações desenvolvidas pelas nossas equipes."6
Nos EUA, a GlobalFoundries assinou uma carta de intenções com o Departamento de Comércio para um prêmio de US$ 300 milhões em fotônica de silício, tecnologia que move dados por luz dentro dos data centers.7 O valor equivale a cerca de 5,6% do capex do primeiro trimestre de 2026 da Micron.27 Mark Papermaster, da AMD, comentou (tradução nossa): "À medida que os sistemas de IA escalam, mover dados com eficiência é tão crítico quanto aumentar o desempenho de computação."7
A corrida por silício próprio
Em 8 de outubro, no Zeta Live 2026, a Zeta anunciou o Athena Inference Model, desenvolvido com a Fireworks sobre o NVIDIA Nemotron. A empresa também disse ter iniciado, com parceiros, o desenvolvimento de um chip especializado, o AIM, numa abordagem de "capital leve".8 Nossa narrativa também aponta SambaNova e Cerebras entre os novos entrantes em chips de inferência, mas o dossiê não traz detalhes verificados sobre eles.1
Há ainda uma aposta mais radical. Hannah Earley, cofundadora e diretora de tecnologia da Vaire Computing, defende a computação reversível, em que o chip recicla a energia que hoje se perde como calor.9 Ela diz (tradução nossa): "Quero atacar cada parte de como os computadores são construídos e repensá-la nesses termos."9 Sobre o ressonador do projeto, afirmou: "É realmente um pêndulo glorificado."9 Como a taxa de acerto medida para essa fonte é muito baixa (veja abaixo), tratamos a ideia como promessa, não como resultado.
Analistas otimistas, com ressalvas sobre as fontes
A Lynx Equity Strategies classifica a Micron como "compra clara" com potencial de valorização de 33%, e a Sandisk com 49%.10 É uma opinião de analista, não uma previsão verificada. A fonte é um artigo da Motley Fool em que só 22% de 18 afirmações checadas se sustentaram, uma amostra pequena e fraca.10 O dossiê não diz quais fundos ou índices têm essas ações, e não vamos supor.
Mostramos também as fragilidades das fontes. O NewsEOD, que sustenta várias das citações acima, teve 31% de 2.928 afirmações checadas confirmadas em alguns documentos e 56% de 4.956 em outros.3567 A reportagem da MIT Technology Review sobre a Vaire teve 0% de 11 afirmações confirmadas, amostra pequena que pede cautela.9 Já os números da Micron vêm de registros na SEC, e por isso são o pilar desta análise.
O que acompanhar
- O capex da Micron nos próximos trimestres. Se continuar acima de US$ 5 bilhões por trimestre, como no primeiro trimestre fiscal de 2026, a aposta na demanda se mantém.2
- A conclusão da fusão Skyworks/Qorvo e o andamento do acordo Bull/Kalray na Europa.56
- Se o chip AIM da Zeta passa do anúncio à entrega.8
- O risco regulatório e geopolítico. Nossa narrativa sinaliza uma investigação da FTC sobre laboratórios de IA e tensões EUA-China, mas o dossiê não traz fatos verificados sobre elas, então ficam como pontos de atenção.1


